22 de agosto de 2017

O Clube dos Não Pagadores de Pedágio

“Não temos dinheiro!”

“Como assim, não temos dinheiro? Nada?”

“Talvez tenha na minha carteira. Olha aí.”

“Dez. Vinte. Vinte e cinco. Trinta e cinco...”

“Reais?”

“Não, centavos. Quarenta...”

“Não temos dinheiro!”

Depois de meses de crise econômica, gastos inesperados e um eventual esbanjamento aqui ou ali, o gosto da miséria finalmente dominou minha boca. Não havia mais saída. Era hora de enfrentar o destino. Respirei fundo e tentei disfarçar o medo enquanto lia a placa que passava pela janela do carro.

PEDÁGIO – 500 METROS

Pessoalmente, acho que o problema de você ficar sem dinheiro é não ter a menor pista do que irá acontecer com seu futuro. Quer dizer, o problema de ficar sem dinheiro é ficar sem dinheiro, mas assim que isso acontece, a falta de perspectiva começa a cair sobre tudo o que você faz, como se fosse uma espécie de garoa.

E essa incapacidade de planejar o futuro é ainda pior quando se trata de algo que já é misterioso por natureza, como pagar o pedágio na estrada.

Vamos ser sinceros: uma pessoa normal não faz a menor ideia do que pode acontecer se você não pagar o pedágio. Se você não pagar a conta de luz, a luz da sua casa é cortada. Se você não pagar o cartão de crédito, o cartão é cancelado. Mas o que acontece se você não pagar o pedágio? Você é obrigado a dar ré na estrada até voltar para casa? Você é exilado do país? É obrigado a trabalhar numa mina de sal?

PEDÁGIO – 200 METROS

As consequências de não pagar o pedágio, na minha cabeça, formam um dos maiores mistérios do mundo moderno. Eu sempre me perguntei isso, mas tudo o que consegui descobrir é que pessoas que já deixaram de pagar o pedágio participam de uma espécie de seita que, como todo seita, possui regras próprias (Primeira regra: você não fala sobre não pagar o pedágio. Segunda regra: você NÃO FALA sobre não pagar o pedágio. Terceira regra: se alguém gritar “pare”, o não pagamento do pedágio está cancelado. Quarta regra: apenas um carro por cabine. Quinta regra: um pedágio de cada vez. Sexta regra: sem notas, sem moedas. Sétima regra: o não pagamento do pedágio dura o tempo que for necessário. Oitava regra: se esta é sua primeira viagem no clube dos não pagadores de pedágio, você precisa deixar de pagar o pedágio) e fazem segredo absoluto sobre esse assunto.

“Você já deixou de pagar o pedágio na estrada?”

“Como assim?”

“Você viaja toda hora, não é possível que você não tenha deixado de pagar o pedágio pelo menos uma vez.”

“Não sei do que você está falando.”

“Olhe, eu só quero saber se a pessoa é enviada para uma mina de sal ou...”

“Vamos mudar de assunto?”

Desde que sou criança e passo por um pedágio, fico imaginando o que aconteceria com alguém que driblasse a tarifa do pedágio. E agora havia chegado a hora de descobrir isso da pior mateira possível. O preço do pedágio era de R$ 4,10 e nós tínhamos exatamente R$ 0,70 e uma bala de hortelã que devia estar no carro desde 2009.

PEDÁGIO – 100 METROS

Encostamos na fila. Enquanto os carros da frente obedeciam às regras sociais e pagavam a tarifa, eu comecei a me sentir como o sujeito que para na porta do banco e começa a observar a segurança enquanto carrega uma escopeta escondida em seu casaco. Eu estava prestes a cruzar uma linha sem volta, enveredando para o mundo do crime junto com a Esposa. Meu futuro agora era claro. Procurados pela lei. O terror dos pedágios de São Paulo. Bonnie e Clyde da Anhanguera.

“Não esquece de dar bom dia para a mulher”, eu disse.

“Oi?”, a Esposa perguntou.

“Nós não temos nada para negociar. É melhor ser simpático. Tenta sorrir também.”

O carro da frente andou e chegou a nossa vez. A mulher abriu o vidro, sem desconfiar que estava frente a frente com dois criminosos em potencial.

“Oi, tudo bem?”, a Esposa disse para a funcionaria do pedágio.

“Não esquece de sorrir!”, eu cochichei.

 “Nós realmente esquecemos do pedágio”, a Esposa continuou falando com a garota dentro da cabine, “e estamos sem dinheiro.”

“Que cabelo lindo!”, eu gritei para a garota do pedágio.  “Você faz hidratação?”

“Cale a boca, estou falando com ela”. A Esposa voltou sua atenção para a mulher do pedágio. “Como a gente deve fazer agora?”

“Fala que a gente não quer ir para a mina de sal. Fala que deve ter um jeito de negociar isso.”

A garota mal olhou para nós – e eu achei isso bom, pois assim ela teria dificuldades em nos identificar na delegacia depois – e disse que deveríamos passar a cabine e esperar um pouco.

“É só encostar aqui e esperar?”, a Esposa perguntou.

“Você quer essa bala de hortelã? É novinha, acabamos de comprar!”

“Deixa eu ouvir o que a mulher está falando!”

Pelo que a mulher explicou, era isso mesmo que devíamos fazer: encostar na zebra e esperar até que alguém aparecesse para falar conosco. O problema é que ela não disse quem iria aparecer. Um torturador importado de alguma ditadura asiática? Um pelotão de fuzilamento? Oficiais nazistas? Enquanto eu procurava mais balas de hortelã para usar como possíveis subornos, a Esposa avançou alguns metros com o carro e encostou ali.

Ficamos parados na estrada, logo atrás da cabine.

Foi um dos momentos mais curiosos da minha vida. Eu fechei os olhos e esperei o carro explodir com um tiro de bazuca, mas nada teria me preparado para o que aconteceu a seguir, quando uma sirene altíssima disparou da cabine atrás de nós.

“ELES ESTÃO MANDANDO OS AVIÕES PARA CIMA DE NÓS! VAMOS SAIR DO CARRO E TENTAR CORRER PARA O MATO!”


Este homem não pagou pedágio.

“Não, essa sirene deve ser para chamar alguém.”

“Eu vou até a cabine! Eu vou me render e dizer que estou pronto para ir para as minas de sal!”

“Fica quieto”.

A Esposa estava certa. A sirene era para chamar alguém. De repente, outra mulher carregando uma prancheta apareceu ao lado do carro.

“Oi”, a Esposa disse. “É com você que precisamos falar? A gente esqueceu o dinheiro...”

“Pergunta se ela é da Gestapo.”

A Esposa usou o cotovelo para pedir que eu calasse a boca e começou a negociar com a mulher. Eu olhei ao redor procurando por soldados armados, mas não vi nada, apenas as pessoas dos outros carros passando por nós e olhando em nossa direção com curiosidade e um pouco de apreensão. A mulher falou alguma coisa para a Esposa e entregou um papel e uma caneta.

“Não assina nada!”, eu gritei. “Diz que a gente tem direito a um telefonema!”

A Esposa me ignorou. Assinou o papel e entregou para mim. Eu corri os olhos pelo papel procurando expressões como “mina de sal”, “pena de morte” ou “perder a alma”. Mas tudo o que o papel dizia era que a Esposa estava ciente de que essa tarifa precisaria ser paga em até cinco dias, caso contrário receberíamos uma multa.

 “Só isso?”, a Esposa perguntou.

“Só isso. Tenham uma boa viagem.”

E foi isso. Fomos embora. Confesso que eu fiquei um pouco decepcionado com o “só isso”. Esperava que a consequência de deixar de pagar um pedágio fosse mais grandiosa. Mas, conforme prosseguíamos a viagem, eu comecei a olhar esse acontecimento com outros olhos e percebi que havia passado por uma espécie de ritual de iniciação do mundo moderno.

Enquanto jovens de tribos antigas precisavam escalar uma árvore, derrotar um urso com uma faca e enfiar a mão numa caixa cheia de vespas, para provar que eram adultos, eu passei pelo meu próprio rito de passagem ao ficar parado no meio da estrada enquanto uma sirene tocava atrás de mim.

A diferença é que os membros das tribos antigas, ao cumprirem o ritual, podiam ser chamados de guerreiros, e eu, ao esquecer o dinheiro do pedágio, posso agora ser chamado de imbecil. Quando percebi isso, afastei esse pensamento da cabeça. Peguei a bala de hortelã com a validade vencida, coloquei na boca e seguimos viagem.

Só espero que, pelo menor, as outras pessoas que deixaram de pagar o pedágio alguma vez conversem comigo normalmente sobre esse assunto a partir de agora.

9 comentários:

Renato Portugal disse...

Muito boa crônica, Rob! Muito boa mesmo. Só aponto uma correção: trocar "menor" por "menos" no último parágrafo - que, aliás, eu acho dispensável. Terminaria com "Peguei a bala de hortelã com a validade vencida, coloquei na boca e seguimos viagem". Mas a crônica é sua, então... :)

Marlon Vieira disse...

É como a aflição que dá quando você está na fila do mercado, e não sabe se terá limite no cartão. Enquanto não aparece "transação aprovada" na telinha a gente não sossega. Chega a dar suor frio.

Alexandre Rigotti disse...

Sem parar..kkkk coloquei o meu quando passei por isso

Robson N. Santos disse...

E quando o pedágio custa R$ 11,30 na ida e mais R$ 11,30 na volta? Pior ainda nos finais de semana e feriados, R$ 18,80!!! Praticamente um assalto a mão armada!!!

Fabricio Dors disse...

Gostei da crônica, Parabéns!!!

Fagner Franco disse...

Já aconteceu comigo. A pessoa do pedágio ainda fez um terrorismo psicológico do tipo "no próximo pedágio, não pode passar de graça de novo". Era mais de meia-noite, ou seja, nenhum banco no interior, estaria aberto - a não ser que tivesse um fuso muito diferente entre um pedágio e outro. Entrei num posto, passei R$55 no débito e o cara me deu R$50. Posso ter feito uma chupeta no cara em agradecimento, mas não me lembro, apesar de não me soar estranho. Saudade do Betão.

R disse...

Muito bom o texto, me fez relembrar da minha infância quando esperava na fila do supermercado enquanto minha mãe comprava "só uma coisinha que esqueci". O pânico da sua vez se aproximando eu me imaginava perguntando se deveria passar a vez para o próximo, se minha mãe chegaria a tempo e se ela não voltasse o que aconteceria? Seria fichado? Teria que devolver cada item nos respectivos lugares? Me fariam trabalhar de empacotador? E se eu voltasse para casa sem a comida, minha família morreria de fome?
Eu achava aquela sensação tensa. Mas ótimo texto e tirou uma dúvida que realmente gostaria de saber se não tiver dinheiro para o pedágio.

Fernanda Caleffi Barbetta disse...

Adorei a crônica... Eu não passei por isso, mas meu marido faz parte desta seita também. Na verdade ele faz parte de várias seitas...

Viviane Porto disse...

Muito bom!
Que divertido kkkkk
Obrigada Rob.