10 de abril de 2017

A Vida é Cheia de Som e Fúria

Aí não teve jeito e eu coloquei um CD do Megadeth.

Calma. O post não começou pela metade e eu garanto que logo você irá entender direito o que isso significa. Essa vai ser uma daquelas histórias que começa no presente, volta para o passado num flashback nostálgico e depois voltamos para o presente, onde tudo se encaixa.

Então, vamos direto para o flashback, que começa mostrando uma ruazinha de São Paulo. São várias casas e o Sol está batendo nos quintais. Temos a impressão de que é um sábado de manhã. Essa é a rua onde eu morava.

E, como acontece em todo flashback, agora começa um narração em off, comigo dizendo para vocês que quando eu era moleque, na rua onde eu morava tinham vários garotos da minha idade. Era uma enorme turma. E éramos adolescentes, então algo que quase todos tínhamos em comum era o gosto pela música. Estou falando do final dos anos 80 e começo dos 90, naquele curto período entre o hard rock e o heavy metal voltarem à moda e o grunge mudar tudo de novo.

E, como você deve imaginar, cada menino ali tinha a sua banda preferida – quem acompanha esse blog sabe que a minha era Iron Maiden. Mas, paralelamente, existia também uma espécie de caça pela banda mais pesada do mundo.

Quando descobrimos Megadeth, achamos que tínhamos encontrado. Mas aí alguém apareceu com um disco do Slayer e o Megadeth perdeu a liderança. Depois, comprei o Arise do Sepultura, que havia acabado de ser lançado e a tabela de banda mais pesada do mundo foi novamente alterada.

Mas alguns dos garotos não participavam disso, preferiam ouvir as bandas que tocavam na rádio e pronto. E beleza: como não existiam redes sociais, ninguém ali era obrigado a ouvir a mesma música que a maioria estava ouvindo como acontece hoje.

Só que eu também não era obrigado a ouvir Aerosmith às nove da manhã de sábado.

Antes que algum fã de Aerosmith jogue pedras em mim, deixo claro aqui que gosto da banda, especialmente da fase dos anos 70 – dos anos 90 em diante a banda perde um pouco da graça para mim, mas eu ainda gosto da fase Cryin’ e Crazy (mesmo que um pedaço do meu cérebro insista em me avisar que essa duas músicas são a mesma).

Mas vamos deixar a banda de lado por um momento. O menino que morava na casa ao lado da minha não participava da busca pela banda mais pesada do mundo. E tudo bem. O problema é que esse menino era o típico adolescente que só ouvia música no volume máximo quando estava sozinho em casa. E mesmo naquela época nós sabíamos que era fácil demais fazer isso com os pais fora de casa.

Se você é adolescente, deixa eu te dar um aviso: o disco do Slayer no máximo soa muito melhor quando seus pais estão em casa tentando ver TV. Se você está sozinho em casa a música não é a mesma. É como se ela estivesse sem o baixo. Você reconhece a música, e ela ainda é legal, mas... Não sei. Falta algo.

Bem, esse garoto só ouvia música no máximo – e cantando junto, aos berros, para demonstrar ao mundo que estava na adolescência e então era revoltado – quando estava sozinho em casa. E um sábado ele resolveu fazer isso. Às nove da manhã. Com Aerosmith.

Não sei até aonde alguém pode parecer revoltado cantando Crazy, mas... Enfim. Hoje eu sei que aquilo era o direito dele. Só que naquele sábado eu não pensava assim.

Isso porque além de procurarmos a banda mais pesada do mundo, nós também caçávamos a bebida mais forte do mundo. Essa busca era meio ingrata, porque já que gastávamos todo nosso dinheiro com discos, tudo o que conseguíamos beber era Velho Barreiro. Mas isso já era suficiente para eu voltar para casa trançando as pernas, nas madrugadas de sexta e sábado. Aliás, qualquer dia eu escrevo mais sobre esses porres, porque o que não faltam são histórias sobre isso. Mas vamos voltar ao Aerosmith.

O menino ligou o som no volume máximo às nove da manhã. Dez horas antes disso, eu havia começado a beber. Três horas antes disso, eu havia entrado em casa totalmente encharcado de pinga e deitado, feliz da vida porque eu não teria hora para acordar.

E dois minutos depois do Steven Tyler começar a gritar na casa ao lado, eu estava sentado na cama – ainda bêbado – tentando entender primeiro porque eu estava acordado e segundo, que merda era aquela. Dez segundos depois disso, eu estava descendo as escadas, bêbado de sono, bêbado de álcool e bêbado de ódio.

Meu sono embriagado e sagrado do sábado de manhã estava destruído e eu precisava fazer algo a respeito disso. Olhei ao redor procurando por uma ideia. Não encontrei ideia nenhuma, mas sim uma das caixas de som enormes, herdadas do toca discos que era da minha avó.

Não precisei pensar muito. Abri a porta e coloquei a caixa de som ali, virada para o quintal. Peguei a outra caixa de som, agradecendo a Deus por ela ter um cabo de uns cinco metros, e coloquei em cima da outra. Nesse momento, minha mãe entrou na sala prevendo o pior e perguntando o que eu iria fazer.

Eu ignorei e fui até o armário de discos. Procurei pelo Arise e coloquei para tocar, pulando o volume do dois para o nove. Escolhi essa música abaixo, porque ela tem uma introdução de alguns segundos sem muito peso, e eu queria que o menino da casa ao lado soubesse o que iria acontecer com ele antes da pauleira começar. Sim, eu jogo limpo e não ataco pelas costas.

Décadas atrás.

Mas a introdução acabou e os riffs começaram a fazer as janelas tremerem. A bateria fazia o chão vibrar como se eu tivesse instalado um bate estaca no meio da sala. E a voz do Max Cavalera fez metade dos vizinhos abrirem as janelas e olharem para o alto, procurando por algum dos cavaleiros do apocalipse no céu.

O Phil Spector, produtor que inventou o conceito de parede sonora, ficaria orgulhoso do que eu estava fazendo. Por outro lado, como hoje o Phil Spector está na cadeia condenado por homicídio, talvez seja melhor pularmos essa parte.

Durante o solo de guitarra, percebi que minha mãe, ali na sala, parecia gritar alguma coisa. Ela estava olhando para mim e seus lábios se moviam, enquanto ela fazia gestos que podiam significar tanto “abaixe essa merda” como “eu vou matar você”. Na verdade, acho que os gestos significavam as duas coisas. Tudo o que fiz foi torcer para que ela soubesse ler lábios e responder que “desculpe, eu não consigo ouvir o que você diz”.

Duas músicas depois, o Steven Tyler estava em silêncio, provavelmente escondido dentro da caixa do CD. E o garoto da casa ao lado estava num silêncio ainda maior. Desliguei a música, arrumei as caixas de som e voltei para o quarto, ainda meio bêbado. Dormi até às 14h.

Mas logo depois que eu me deito temos uma fusão, indicando uma grande passagem do tempo e que o flashback acabou. Sim, nossa história volta ao presente. Hoje eu sou casado e me tornei um adulto responsável. Ou pelo menos eu disfarço muito bem.

Quem leu o último post sabe que a casa ao lado da minha foi ocupada por um advogado que reza em juridiquês e não deixa ninguém dormir. E eu estava lidando muito bem com isso até uns dias atrás, quando ele encheu sua casa de pessoas.

Ok, ele pode dar festas. Eu mesmo dou festas em casa. Só que quando eu dou festas em casa, eu não peço para uma pessoa ficar ao lado do muro, perto da porta do vizinho, cantando no máximo.

Foi isso que aconteceu. Eu estava no PC e comecei a ouvir gatos brigando. Fui até o quintal e vi que não eram gatos, mas sim uma mulher de seus vinte e cinto, trinta anos, com fones de ouvido, cantando de forma desafinada e aos berros. Ainda dava gritinhos e fazia dancinhas.

Não foram cinco minutos disso, e sim quase uma hora. Um momento eu peguei o trecho de uma música e joguei no Google, descobrindo que era daquela dupla Maiara & Alguma Outra Menina que Começa com Ma Mas não É Maiara que já vi as pessoas falando no Twitter.

E mesmo as pessoas da casa do vizinho estavam pedindo para ela parar de cantar, mas ela respondia que “estou agitada e preciso cantar para espairecer”. Eu pensei em gritar de volta que “estou trabalhando e preciso de silêncio para escrever”, mas como falei alguns parágrafos acima, agora eu sou adulto e lido melhor com isso.

E sim, eu imediatamente me lembrei do famoso sábado do Sepultura, que é como meu cérebro arquivou os acontecimentos que vocês viram no flashback, mas, mais uma vez: eu sou adulto. Eu consigo coexistir no mesmo mundo que Maiara & Marrakesh. Respirei fundo e tentei me concentrar.

Só que minha concentração acabou de vez quando a Esposa passou pela sala carregando o som que fica na cozinha. Acompanhei com os olhos enquanto ela colocou o aparelho na janela da sala e ligou o CD que estava lá dentro. Rolling Stones.

“Eu vou deixar esse CD tocando até essa mulher calar a boca”, ela disse.

Meu impulso foi dar um pulo e socar o ar, comemorando que “liberou geral”. Mas mantive as aparências de adulto e apenas olhei com cumplicidade para minha coleção de CDs, que olhou de volta para mim e sorriu. Nosso momento estava chegando.

O plano da Esposa não deu certo. O som era baixo demais. Maiara & Macedônia continuavam gritando. Peguei um CD e fiz uma sugestão: “olha, eu posso tentar com esse disco aqui”. Ela fez que sim e eu coloquei Slayer para tocar. Seasons in the Abyss.

Continuou sem efeito, por vários motivos. Primeiro, a janela fica muito distante de onde a Maiara & Mamadeira estavam se apresentando. Segundo, o som da cozinha não tem um volume muito alto. Terceiro, eu odeio todos os CDs mais antigos do Slayer porque eles têm uma mixagem horrível e o som é abafado.

Não havia mais jeito. Virei para a Esposa e perguntei se podia tentar do meu jeito. Ela disse que sim e eu abracei minha estante de CDs, dizendo que “meninos, temos autorização oficial”, sentindo meus dezesseis anos voltarem a correr pelo meu corpo.

Tranquei os gatos no quarto. Abri a porta da sala e ouvi Maiara & Mahabharata cantando. Liguei o aparelho de som da sala. As caixas de som não eram as da minha avó, mas eram melhores – bem melhores – que as do som que estava na janela. Como referência, nas festas aqui em casa eu deixo o volume (que vai de 0 a 40) abaixo do 20.

Peguei um CD que foi feito especialmente para este tipo de situação: Rust in Peace, do Megadeth, remasterizado e remixado e que se vira muito bem no volume 15. Coloquei no 40 e dei o play. E dessa vez sem introdução porque não é sempre que eu jogo limpo.

Hoje.

Os riffs começaram a fazer as janelas tremerem. A bateria fazia o chão vibrar como se eu tivesse instalado um bate estaca no meio da sala. E a voz do Dave Mustaine fez metade dos vizinhos abrirem as janelas e olharem para o alto, procurando por uma revoada de corvos.

Fui até o quintal duas músicas depois e vi que Maiara & Mariposa estavam em silêncio. A garota havia sumido com suas dancinhas e gritinhos. Problema resolvido. Tanto que a Esposa se aproximou e disse que eu podia desligar o som.

Claro que eu não virei para ela e respondi que “desculpe, não estou ouvindo você falar”, porque eu podia ter me tornado novamente um adolescente, mas ainda tinha noção do perigo. Então, decidi jogar limpo.

“Eu vou deixar mais duas músicas, pelo menos”.

“Mas a imbecil já calou a boca.”

“Sim. O que eu estou fazendo agora é enviar uma mensagem ao vizinho”.

E era verdade. As últimas duas canções mostraram para o vizinho que, na minha casa, sempre existirá pelo menos uma música a mais. E ela sempre será mais pesada. E ela sempre tocará mais alto.

Desde então, Maiara & Madeira desapareceram e estou chamando minha coleção de CDs de heavy metal de Terror Moral. E estou seriamente pensando em tocar a campainha da casa do vizinho e me apresentar, dizendo que “muito prazer, sou seu novo vizinho e meu nome é Horror.”

E se o vizinho da casa ao lado não entender, eu vou sugerir que ele assista a Apocalypse Now, especialmente a cena em que o Marlon Brando diz que “o horror tem um rosto, e você deve se tornar amigo do horror. O horror e o terror moral são seus amigos. Senão, eles são inimigos a serem temidos. Eles são inimigos verdadeiros”.

Afinal, quando eu era adolescente, eu aumentava o volume.

Hoje, adulto, eu envio mensagens.

5 comentários:

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Te entendo perfeitamente: já precisei fazer o mesmo e, no meu caso, foi com "Revolution is my name" do Pantera, por mais que eu quisesse usar "Cowboys from Hell", mas este CD, à época, estava emprestado.

Forte abraço!

Adriano Trotta disse...

Eu defino Sepultura carinhosamente como massa sonora.

Elise Garcia disse...

Lá em casa, quando estou sozinha e começa a bagunça sonora na vizinha, eu coloco uma música do Burzum chamada Sverddans no volume mais alto possível. O máximo que pode acontecer é alguém vir me exorcisar, mas eu nem ligo, algumas frases em alemão e a criatura nunca mais chega perto...

Varotto disse...

"Fucking Hostile", do Pantera, sempre funciona.

Dudu disse...

Hahaha, no meu caso eu uso uns áudios ao vivo de bateria de Escola de Samba, funcionam, também.