4 de junho de 2014

Por um Fio (Dental)



Dia desses estava na padaria aqui ao lado de casa. Esta padaria é um dos estabelecimentos comerciais com a estratégia mais inovadora que eu vi até hoje: o diferencial dela é ser ruim - eu já falei dela aqui e aqui também.

Eles pioram alguma coisa a cada dia. Quando você acha que não dá para piorar, que a padaria chegou ao fundo do poço, mas mexeu na folhagem que estava ali e encontrou um alçapão que leva um novo nível de decadência com buracos profundos, eles conseguem quase que por mágica estragar alguma coisa nova.

É preciso piorar sempre, até mesmo com as coisas que não dá para piorar. Sorvete, por exemplo. Sorvete é algo que não dá para estragar, já que não é feito por eles e um produto que deve ter uma data de validade nível “Capitão América congelado”.

Como daria trabalho demais rasgar as embalagens de todos os picolés para estragar o lote inteiro, eles optam pelo caminho mais simples: decidem não ter. Veja bem, não é “não trabalhar com sorvetes”, é “não ter”. A geladeira está ali perto da porta, ligada e funcionando. Mas não tem sorvete algum lá dentro – talvez antes do almoço você encontre a marmita de um dos funcionários, mas sorvete, mesmo não tem. Só a geladeira.

De umas semanas para cá, porém, é visível o esforço que eles estão aplicando para piorar o pão. Porque “não ter pão” é fácil, qualquer boteco não tem pão. É preciso ter pão, e que ele seja o pior pão do bairro (eles só relaxam e se permitem não ter pão depois das 21h). E a estratégia para isso é brilhante: eles trocam de funcionários a cada três dias, que é o tempo que o sujeito aprende a fazer pão.

É mais ou menos assim. Eles têm toda uma equipe de pessoas fazendo pão e atendendo no balcão. No primeiro dia, nada funciona. No segundo dia, as coisas melhoram um pouco. No terceiro dia, tudo funciona bem demais: o pão fica bom e o atendimento é rápido. Aí eles trocam a equipe inteira – o único funcionário que eles mantêm, aparentemente, é um padeiro esquizofrênico, que faz, na mesma fornada, alguns pães franceses do tamanho de um fusca e outros do tamanho de uma tampa de caneta. Esse aí é o funcionário modelo. É o exemplo a ser seguido na arte de “fazer pão ruim”.

E o objetivo vem sendo atingido. Os clientes, pelo que posso ver, parecem detestar a troca de funcionários que mantém o pão sempre ruim. E o dono – um gordo de uns quarenta anos que não sabe falar sem gritar – fica ali no caixa, coçando a bunda que escapa para fora da calça e sorrindo, orgulhoso, a cada reclamação.

Dia desses, eu fui até lá comprar cigarro. Era final da tarde. Um sujeito estava pagando e eu entrei atrás deles, na fila, esperando minha vez. E ouvi a conversa entre ele e o dono.

- Esse menino que você colocou no balcão é muito ruim.

- É mesmo?

- É. Ele não sabe nem falar com o cliente direito.

E eu ali, olhando.

- Como assim?

- Primeiro, ele não dá nem boa noite. Segundo, ele entrega o saco de pão todo amassado.

- É que ele é novo.

- Mas isso não explica ele ser mal educado.

E eu ali, olhando e prestando atenção.

- Isso é verdade. Peço desculpas.

- Você tem colocado cada dia gente pior aqui.

- É difícil. Você dá emprego para essa gente, mas tem uns que não sabem aproveitar. Você ensina, treina, diz como faz... E o cara não aproveita nada. Não sabe nem como falar direito com o cliente. É mal educado.

E eu ali, olhando, prestando atenção e pensando em dizer que “olha, desculpe me meter, mas eu queria assistir o seu treinamento. Porque ontem eu vim aqui depois do almoço e você estava aqui no caixa passando fio dental. E não parou de passar enquanto me atendia. Ficou ai passando essa merda e chupando a comida dos dentes”. Mas fiquei quieto.

- É, mas esse aí é ruim demais.

- Eu vou falar com ele. Próximo.

Era minha vez.

- Me dá um Marlboro box.

- Não tem.

- De novo?

- Ah, não, espera! É o vermelho?

- Isso.

- É, não tem.

- Certo. Dá um Lucky Strike, então.

E fui embora para casa. O menino que “não sabe falar com os clientes” não foi demitido. Esse está lá todos os dias. Provavelmente, até o final do mês ele vira gerente.

Porque ter a pior padaria não é tarefa fácil. É preciso ter alguém que seja bom nisso comandando os funcionários, controlando a má qualidade dos produtos e inventando sempre novas maneiras de deixar o cliente emputecido.

5 comentários:

Ana Claudia Savini disse...

“olha, desculpe me meter, mas eu queria assistir o seu treinamento. Porque ontem eu vim aqui depois do almoço e você estava aqui no caixa passando fio dental. E não parou de passar enquanto me atendia. Ficou ai passando essa merda e chupando a comida dos dentes”.
Aaaaaaaaaaaahhhhhhhhhhh nojo!
Ainda bem que eu não estava junto nesse dia...

Andre F Oliveira disse...

Essa padaria lembra um mercadinho que tem aqui perto de casa. O açougue do mercadinho vende uma carne de 3ª com o nome de "Bife Especial". Quando perguntam a ele se a carne é dura ele responde: "Não existe carne dura, o que existe é gente com preguiça de mastigar".

Guilherme George disse...

Rob, não seria melhor mudar de padaria? As coisas não vão mudar por lá se eles não perderem clientes. Troquei de papelaria e farmácia porque ou o atendimento foi ruim ou sempre faltava um produto e não me arrependo, apesar de ter que andar um pouco mais.

Cuidado pra não encontrar nenhuma surpresa nesses pães.

Varotto disse...

Pois é. Como o Guilherme falou. Uma hora dessas eles começam a vender pão de grife:

http://perolas.com/wp-content/uploads/2013/10/pao-da-lacoste.jpg

Marina disse...

OK, vou dar um crédito pro cara porque ele pelo menos passa fio dental, mesmo que em público. Já vi gente que não sabe nem o que é, ou diz que prefere palito.