20 de maio de 2014

A Culpa é Sempre do Outro

Existe uma regra aqui em casa: a culpa é sempre da minha Esposa. Sempre. É ela que está empatando o negócio, é ela quem desistiu na última hora, é ela quem melou aquilo que estamos planejando. Minha Esposa é louca e ela muda de ideia a cada minuto. Por isso vamos ter que abortar tudo.

Ok. Se você é feminista, segure os palavrões e as pedras. Deixe-me mostrar uma coisa antes de você jogar meu blog no Facebook e pedir para as pessoas se amontoarem na porta da minha com tochas e forcados. Se este blog fosse escrito pela minha Esposa, o parágrafo acima seria:

Existe uma regra aqui em casa: a culpa é sempre do meu marido. Sempre. É ele que está empatando o negócio, é ele quem desistiu na última hora, é ele quem melou aquilo que estamos planejando. Meu marido é louco e ele muda de ideia a cada minuto. Por isso vamos ter que abortar tudo.

Ou seja: não se trata de sexismo, machismo, feminismo, qualquer-outro-ismo. É uma estratégia de sobrevivência no mundo moderno. Quando eu preciso falar não, a culpa é toda dela. Quando ela precisa falar não, a culpa é toda minha.

Esta estratégia nunca foi combinada. Ela foi moldada quase que por acidente no final do ano passado, quando estávamos procurando casas e tínhamos que falar com corretores o tempo inteiro. E corretor é aquela coisa: você diz que está procurando uma casa assim e assado na Vila Mariana. Ele nem ouve, está mais preocupado em anotar seu telefone.

A partir daí, ele começa a te ligar todos os dias. Ele tem uma casa do jeito que você pediu, mas é no Mato Grosso. Ele acabou de ficar sabendo de um apartamento maravilhoso, que eu sei que vocês querem casa, mas este é na Vila Mariana e dá para colocar o carro do cunhado dele no negócio. Vocês tem PlayStation? Meu filho está vendendo os jogos deles, posso passar aí?

Corretores são apenas a ponta do iceberg. Banco? Mesma coisa. Empresas de celular. O tempo inteiro. Cartão de crédito? Todos os dias.

Mas não adianta ligar. Eu não posso comprar nada seu. Eu até queria, mas não posso. A culpa é da minha Esposa. Ela não deixa.

- O senhor não quer aumentar o limite do seu cartão?

- Não, obrigado.

- É uma oportunidade de ouro. Sua anuidade vai subir um pouco, mas os benefícios compensam.

- Sério?

- Sim. Vamos fechar.

- Não posso. Tenho que falar com a minha Esposa.

- Posso ligar para o senhor amanhã?

- Claro.

Aí desligo o telefone e nem penso mais no assunto até o dia seguinte, quando toca o telefone.

- Senhor Rob? Vamos fechar o novo cartão?

- Putz, cara. Minha Esposa não quer.

- Mas o senhor explicou as vantagens para ela?

- Então, não consegui. Eu toquei no assunto, ela gritou comigo. Disse que eu já gasto muito e que se eu fizer isso com o cartão meu casamento acaba.

- Mesmo? Mas...

- Aí eu mudei de assunto. A última vez eu apanhei por causa disso. Desta vez eu fiquei quieto.

- Mas as vantagens são muito boas.

- Eu sei. Mas não vai dar. Desculpe. Minha Esposa não quer. Ela é louca.

Às vezes, eu brinco e coloco minha Esposa no outro lado do mundo.

- Será que eu posso falar com a sua esposa e explicar as vantagens da minha proposta para ela?

- Então, ela viajou hoje cedo a trabalho. Tem que esperar ela voltar.

- Sem problemas. Que dia ela volta?

- Em novembro.

- Como?

- Novembro. Ela é arquiteta, foi contratada para construir um prédio lá no Oriente Médio. Acho que é Dubai. Dubai ou Noruega. Não lembro. Volta só em novembro.

- Noruega não é Oriente Médio.

- Mesmo?

- Sim. É na Europa.

- Você tem razão. É isso mesmo, eu me confundi. Ela foi para Dubai, volta em novembro. Acho que no dia quatro. Ela vem para casa, troca de roupa e vai para a Noruega, fica lá até maio. Você pode tentar, mas acho que no dia 4 ela vai ficar só vinte minutos aqui em casa.

- Entendi.

- Sim. E olhe que azar, você não encontrou com ela por pouco. Ela saiu faz dez minutos.

- Será que se eu ligar no celular dela...?

- Você pode tentar.

- Vou tentar e volto a falar com o senhor.

Aí eu deligo e toca o telefone dela. Ela – que estava na minha frente o tempo inteiro – olha o número e passa para mim. Eu atendo.

- Alô?

- Quem fala?

- Cara, minha esposa esqueceu o celular! Depois eu falo com você, tenho que correr para o aeroporto!

É assim que nos livramos de tudo. O caso mais emblemático foi quando desistimos de alugar a Casa-Monstro (sobre a qual eu falei aqui). Estávamos com quase tudo fechado, mas a negociação começou a melar. E minha Esposa ficou com um palpite ruim sobre a casa. E, como eu disse lá, acredito mais nos palpites dela que na certeza dos outros. Liguei para o Velho – era véspera de Natal - e desfiz tudo. Estava sentado na cozinha enquanto ela, ao meu lado, fazia a ceia.

- Mas vocês estavam quase fechados!

- Eu sei. Minha Esposa mudou de ideia. Desculpe. Ela é louca.

- Posso falar com ela?

- Não, ela foi viajar. Ela tem parentes que moram no Rio e foi passar o Natal lá. O senhor não vai conseguir falar com ela.

- Vocês estão perdendo um baita negócio.

- Eu sei. Eu sei. Expliquei isso a ela. Ela nem quis ouvir. Eu sofro muito com isso. Ela é louca, quando cisma com algo, é difícil fazer com que ela mude de ideia. Sinto muito.

Sempre funciona. Minha Esposa é o melhor álibi do meu mundo e eu sou o melhor álibi do mundo dela. Este talvez seja o segredo de um bom casamento: a culpa é sempre do outro, desde que 1) o outro saiba disso e 2) o outro está blindado e é impossível falar com ele. O inverso também funciona.

- Meu marido não quis que eu comprasse isso. Sinto muito.

- Eu sei, eu estava interessada. Meu marido – que acabou de viajar – disse que 200 reais é muito caro. Ele aceita pagar 15. Pode ser?

- Meu marido é alérgico a oxigênio, não podemos ir para sua fazenda.

O esquema funciona tão bem que já usei algumas vezes com meu enteado.

- Tenho uma festa na casa de Beltrano hoje, mas não estou com vontade de ir.

- Fácil. Não vai.

- Mas eu tenho que ir. Não tenho uma desculpa para dar.

- A desculpa sou eu. Fale que eu não deixei.

- Você nunca “não deixou” eu fazer algo.

- Sim, eu sei disso. Você sabe disso. Mas Beltrano não sabe disso. Fale que eu não deixei.

- E por que você não deixaria?

- Por que eu sou escroto. Pode falar isso. Meu padrasto é um escroto, ele nunca me deixa fazer nada. Eu odeio minha mãe ter casado com esse filho da puta. Use muitos palavrões para mostrar que você está realmente puto comigo. Assim você mostra que queria ter ido até a festa.

- Mas aí meu amigo vai achar que você é filho da puta.

- E desde quando eu me importo com as pessoas pensarem isso de mim mesmo?

- E se meu amigo quiser falar com você?

- Fale que eu morri. E aí emende que você não pode ir para a festa porque precisa ir ao meu enterro.

Não sei se ele usa isso. Deve usar, porque ele acaba não indo à festa.

Mas, enfim, esse é o segredo. Eu já fui colocado como culpado de muita coisa que eu não fiz. Aposto que você também. Na escola, num namoro, na faculdade, no trabalho. Vira e mexe você se torna culpado de algo que nem sabia que estava acontecendo. A dica é: se alguém coloca a culpa em você, é porque esta pessoa não gosta de você.

Mas se colocar como o álibi de uma pessoa é uma prova de amor enorme, especialmente num mundo dominado por corretores, vendedores, gerentes de banco e outras criaturas do inferno.

Mas claro que existem algumas exceções. São aqueles que me tiram do sério. Para esses, a culpa é minha, e eu faço questão que seja. Com esses, o discurso é diferente.

- Fale que a culpa é minha e não dê explicações. Se esse filho da puta fizer qualquer outra coisa que não seja desligar o telefone, passe meu número de telefone e mande ligar agora para mim para falar comigo. Não, agora não. Daqui a dez minutos. Já volto.

- Aonde você vai?

- Comprar cigarro. Se esse cara me ligar mesmo, o tempo vai fechar e eu tenho só meio maço. Já volto.

2 comentários:

Fernando Santos disse...

Hahaha... boa maneira de se livrar das "criaturas do inferno"!

Ricardo Wagner disse...

Fantástico!

É a forma como vou educar meus filhos.