24 de agosto de 2016

A Medalha de Ouro do Irmão Leão

Aconteceu quando eu estava na 2ª ou 3ª série – ou seja, na primeira metade dos anos 80.

Eu estudava num colégio tradicional aqui de São Paulo, daqueles com milhares de alunos e centenas de funcionários. E uma das figuras mais adoradas por todos – alunos, ex-alunos, pais de alunos, professores – era um irmão marista (sim, o colégio era marista) conhecido como Irmão Leão.

Na verdade, eu não sei direito nem qual era o cargo dele no colégio, mas não havia aluno que não o conhecesse. Era louco por esporte, e estava sempre apitando jogos de futebol entre os garotos. Um dos seus maiores prazeres era organizar os campeonatos entre classes, que eram disputados aos sábados.

Lembro bastante do seu rosto, mas essa é a única memória mais exata que tenho dele.

Para mim, ele era um gigante, mas sua altura podia ser bem menor. Afinal, ele era visto pelos olhos de um menino de oito ou nove anos que só não foi o menor aluno da classe em uma ocasião – fiquei surpreso ao descobrir que existia um garoto da minha idade menor que eu no colégio (seu nome era Márcio, um japonês minúsculo; estudamos juntos na quarta série e fomos muito amigos naquele ano).

Mas o Irmão Leão era um gigante moral. Sempre que algum aluno passava por ele no corredor, fazia questão de cumprimentá-lo. E bastava ele colocar os pés em uma das salas de aula para que todos os alunos ficassem em silêncio. Isso acontecia também quando os diretores entravam nas salas, claro, mas com o Irmão Leão era diferente. O silêncio na presença dos diretores era por medo. No caso do Irmão Leão, era respeito.

E o Irmão Leão estava sempre nas salas, porque ele tinha outro grande prazer: tomar tabuada das crianças. Ele entrava nas turmas do primário e fazia uma competição ente os alunos. Competição mesmo, com medalha e tudo mais.

Então você ia até a frente da sala e tinha que responder coisas como 9 x 4, 6 x 8 e coisas do gênero, ali, sem parar para pensar. Hoje parece fácil; na época, não era. Acho que os campeonatos de tabuada do Irmão Leão foram o primeiro trabalho com prazo apertado que eu tive na vida.

Mas eu me dava bem. Eu era um excelente aluno. Excelente mesmo, e sempre fui um dos melhores da sala, até o colegial. Aí eu descobri que minhas responsabilidades escolares podiam tanto ser diluídas no álcool do boteco atrás da escola, como virar fumaça junto com os cigarros que eu fumava na porta da escola.

E assim, lá estava eu, com oito ou nove anos, em pé na frente de toda a sala e encarando o Irmão Leão nos olhos.

Ele jogou umas oito ou dez contas para mim, mas eu dei uma pequena amarelada em algum momento– deve ter sido na tabuada do 7, que eu sempre achei uma das mais difíceis (eu e o 7 x 8 vivemos um clima de guerra fria durante boa parte da minha infância).

Enfim, não consegui a medalha de ouro. E eu queria. Eu queria voltar para casa com aquilo no peito e mostrar para os meus pais.

Mas agora eu preciso ser sincero: eu não me recordo se ganhei a medalha de prata ou a de bronze. Algo me diz que foi prata, mas em alguns momentos tenho certeza que foi a de bronze. Como estamos em um desses momentos, vamos assumir aqui que foi bronze e continuar a história.

A entrega das medalhas acontecia depois de alguns dias. Durante esse tempo, o Irmão Leão terminava de percorrer as outras salas desafiando as crianças com contas de multiplicação. Depois, ele publicava um papel com os premiados de cada turma em todas as salas de aula e, finalmente, entregava as medalhas.

E assim, um dia, ele voltou a passar na sala. Colocou o papel com os premiados numa parede e fez questão de ler em voz alta os alunos daquela classe que seriam premiados (eram uns três ou quatro nomes para cada medalha). E eu ali, ansioso, esperando pelo meu nome na medalha de bronze.

Mas ele não veio.

Quando ele terminou de ler os premiados com bronze e eu não ouvi o meu nome, minha barriga congelou. Onde estava minha medalha? Mas fiquei quieto – e, claro, com a sensação idiota de que a classe inteira estava olhando para mim. Aí ele leu os medalhistas de prata.

– Fulano. Rob Gordon. Beltrano.

Não é demais lembrar que caso eu tivesse ganhado a medalha de prata e minha memória está me enganando, meu nome foi citado no ouro. De qualquer forma, alguma coisa havia acontecido e eu havia subido um degrau no pódio. E isso só tinha duas explicações: ou algum aluno com marca melhor que a minha havia sido desclassificado por doping, ou o Irmão Leão havia cometido algum erro.

Mas eu não iria falar isso. Não ali, na frente da classe. Afinal, eu tinha menos de dez anos, e jamais iria a) chamar a atenção para mim na frente da sala (apesar de que eu fazia isso com piadas a aula inteira); e muito menos b) levantar e dizer que o Irmão Leão estava errado, algo que nunca devia ter acontecido na história da escola.

Durante alguns segundos, enquanto o Irmão Leão saía da sala, eu pensei em deixar aquilo tudo morrer. Seria mais fácil assim. Eu não me meteria em problemas. Não arrumaria confusão. E ainda voltaria com uma medalha melhor para casa. Do alto dos meus oito ou nove anos de idade, eu só via vantagens nisso.

E ainda estava com todas essas vantagens dançando na minha cabeça quando me levantei e fui até a professora. Falando baixinho, pedi permissão para sair da sala porque eu precisava falar com o Irmão Leão. Ela autorizou e eu fui atrás dele.

Lembro claramente da imagem dele andando pelo corredor, de costas para mim, alguns metros na minha frente (é meio assustador pensar que isso aconteceu há mais de trinta anos). Eu corri.

– Irmão Leão!

Ele parou e se virou na minha direção. Ficou me observando enquanto eu me aproximava dele. Talvez ele não tenha percebido, mas eu não sabia o que fazer. Quer dizer, eu sabia o que fazer, mas não sabia como fazer. Então, despejei logo de uma vez:

– A minha medalha está errada.

– Está?

– Sim. Você leu meu nome na medalha de prata. E eu ganhei bronze.

– Tem certeza?

Quando você é criança, a pergunta “tem certeza?” é algo que você normalmente escuta quando está errado. Mas eu estava certo.

– Sim. Eu ganhei bronze. Eu demorei na hora de responder (insira aqui qualquer conta da tabuada do 7) e (insira aqui outra conta da tabuada do 7).

O Irmão Leão ficou em silêncio, como se estivesse puxando meu desempenho pela memória. Não falou nada por alguns instantes, até me dizer que:

– Você tem razão. Eu me lembro. Você ganhou a medalha de bronze.

Eu não respondi nada, mas ele me deu um sorriso que eu não entendi na hora.

– Você não quer a medalha de prata?

Eu queria. Claro que eu queria. Queria ganhar aquela medalha na frente de toda a sala. Mas eu sabia que não podia voltar para casa com uma medalha que não era minha. Isso seria pior que não voltar com medalha nenhuma.

– Quero. Mas eu não ganhei prata. Eu ganhei bronze. Eu quero a de bronze.

Foi quando ele fez algo que me fez entender o sorriso que havia dado. Algo que, ali naquele momento, confuso e com um pouco de medo, eu tive certeza de que nunca mais esqueceria. Ele se ajoelhou e colocou seu rosto na altura do meu.

– Então você vai ganhar sua medalha de bronze. Mas eu quero que você saiba que isso que você fez hoje merecia uma medalha de ouro. Isso que você fez hoje é mais importante que qualquer tabuada. Nunca se esqueça disso.

Eu obedeci, porque todo mundo obedecia ao Irmão Leão. Eu nunca me esqueci.

E levei isso comigo a vida inteira.

Um ou dois anos depois, o Irmão Leão morreu. Morreu numa manhã qualquer e no meio do campo do futebol apitando um jogo de futebol, que era o que ele mais gostava de fazer na vida. Acho que foi parada cardíaca. Meu irmão, na época, estudava numa sala que ficava em frente ao campo – que hoje, se não me engano, é uma quadra e tem o nome dele – e viu tudo acontecer. Eu estudava à tarde e não tive aula naquele dia.

Acho que todo mundo que andou por aqueles corredores naquela época, tem alguma história com o Irmão Leão. Essa é a minha.

E eu carrego no meu peito até hoje a medalha de ouro que ele disse que eu merecia. E passei a vida inteira tentando conquistá-la. Faço isso ainda hoje.

Já ganhei essa medalha diversas vezes, e perdi em outras tantas. Ela é difícil demais de ser conquistada. Muitas vezes eu não fui bom o suficiente, em outras eu simplesmente desisti da medalha porque era mais fácil, por medo, comodismo ou qualquer outro motivo. Mas encontro um pouco de conforto sabendo que mais importante que ter perdido a medalha é o fato de que eu não me orgulho disso.

Mas eu ganhei várias vezes. No trabalho. Em relacionamentos. Na vida. E isso não me torna melhor que os outros. Essas medalhas me tornam apenas... Melhor. Cada vez que, eu recebo a medalha de ouro do Irmão Leão, dentro da minha cabeça, eu me transformo numa pessoa melhor. E isso basta.

Hoje eu sei que a medalha de ouro do Irmão Leão não é uma meta e sim um caminho. Por que existem competições onde a disputa é com você mesmo. E, muitas vezes, você é o maior adversário que você terá pela frente. Mas, de vez em quando, o Irmão Leão aparece e coloca uma medalha de ouro no meu peito, dizendo que eu estou no caminho certo.

E eu sorrio. Como qualquer pessoa que já perdeu essa medalha várias vezes, eu sei o quanto é difícil andar pelo caminho certo. E que cada passo nesse caminho vale muito.

Como ele disse, vale mais que qualquer tabuada.


(Esse post é dedicado aos donos da empresa onde trabalhei durante quase dez anos, e que colocam todos seus bens nos nomes de outras pessoas para não me pagarem, na justiça, apenas e nada mais do que me devem. Mas a vida é assim: cada um com a sua medalha).

15 de agosto de 2016

O Capacetiano e a Fenda Temporal

Eu confesso que dei risada a primeira vez em que vi um daqueles cartazes dizendo que “é proibido entrar com capacete” que às vezes a gente vê em lojas e padarias. Sim, eu sei que isso é para evitar assaltos, mas não posso negar que acho uma determinação engraçada – talvez porque a ideia de uma pessoa ficar andando a pé com um capacete na cabeça soa meio... Não sei. Desenho animado.

Mas, enfim... Outro dia eu descobri que talvez esses cartazes sejam colocados por outro motivo diferente de assaltos. Vocês já tentaram conversar com alguém que está usando um capacete? É virtualmente impossível, e eu não fazia ideia disso até pedir uma pizza na semana passada.

Antes de continuar, eu preciso falar um pouco sobre a máquina de débito dessa pizzaria. Todas as comidas que pedimos aqui em casa são pagas no débito, então os entregadores trazem sua maquininha. Eles dão boa noite, eu entrego o cartão, eles me dão a maquininha, eu digito a senha, a operação é aprovada, eu pego a comida e pronto, todos ficam felizes.

Menos com essa pizzaria. A pizza deles é muito boa, mas o problema é que a máquina de débito deles não parece acompanhar esse padrão de qualidade. Ela deve ter um processador usado nos anos 80 e sua conexão deve ser feita com alguma antena que fica na região Centro-Oeste do país. Então, normalmente eu peço a pizza para jantar e só consigo entrar em casa com a minha pizza quando as pessoas já estão no dia seguinte, decidindo o que irão almoçar.

Acabou de me ocorrer aqui de que talvez eu não esteja pedindo pizzas, mas sim fendas no tecido do espaço-tempo. Aliás, posso até fazer um experimento e pedir pizza todas as noites durante cinco anos, para verificar se, depois desse tempo, eu envelheci na mesma proporção que meus vizinhos ou se eu experimentei outra velocidade temporal.

Mas, enfim... Sexta-passada nós pedimos uma pizza e, depois de uns trinta minutos a pizza chegou. Abri a porta e fui até o portão, onde o H. G. Wells que entrega pizzas ali estava me esperando com sua maquininha do tempo que faz pagamentos.

E, claro, usando seu capacete, que aparentemente funciona como um tradutor universal invertido: tudo o que ele fala se torna um idioma alienígena. Mas eu o cumprimentei normalmente.

– Boa noite.

– Mné.

– Oi?

– Ba-mné.

– Hã... Ok. Qual o valor?

– Trotoenta.

– Quanto?

– Troto...

– Olha, eu não estou...

–... Enta.

– Eu realmente não estou conseguindo...

Aparentemente, no planeta onde ele vive as pessoas estão mais acostumadas com esse tipo de situação, então o sujeito apenas me entregou a nota fiscal. Bati os olhos e descobri que trotoenta era trinta e oito e sessenta. Para você que está lendo isso pode parecer óbvio, mas não era, acredite. Dei de ombros e entreguei o cartão para ele.

– Ébi? Édi?

Respirei fundo, tentando lembrar se eu não tinha dinheiro na carteira, mas achei que não.

– Eu não entendi a sua perg...

– Ébi ou Édi?

– Eu tenho que escolher um dos dois, é isso?

– Ébi. Édi.

Ele apontou para a máquina e eu finalmente entendi. “Ébi” significava “débito” e “édi”, por sua, vez, “crédito”. Aparentemente, o capacetiano é um idioma com as palavras que têm variações muito sutis na sua pronúncia.

– Hã... Ébi.

Ele pegou meu cartão e colocou na maquininha. Agora sim estávamos chegando a algum lugar! Eu ainda estava aliviado quando ele me entregou a maquininha. E foi só a hora que eu peguei o objeto e me preparei para digitar a senha que me lembrei do poder destruidor que aquele aparelho tem no fluxo temporal. Ao invés de pedir minha senha, a máquina exibia apenas a palavra:


REGISTRANDO


Fiquei olhando para a máquina durante uns dez ou quinze segundos, mas a mensagem não se alterava. O embaixador do planeta Capacete Prime começou a ficar impaciente.

– Sanha?

– Oi?

– Sanha?

– Senha?

– Sanha!

Olhei para a máquina novamente.


REGISTRANDO


– Olhe, não está pedindo minha senha. Aqui diz que ainda está registrando.

– Cisassanha!

– Desculpe, eu não estou entendendo...

– Sanha! Cisassanha!

– Olhe, eu fiz faculdade de comunicação. Eu sei que faz tempo que eu me formei, mas tenho certeza que seus fonemas não estão se encaixando direito. Eu só posso fazer o que você quer se eu entender o que...

– Sanha! Sanha! Cisassanha!

– Talvez se você tirasse seu capacete? Porque eu acredito que a atmosfera aqui é respirável.

Ele olhou para a máquina e eu também.


TENTANDO CONEXÃO


– Viu? Ela está dizendo que ainda não é o momento da senha.

O capacetiano, impaciente, arrancou a máquina da minha mão e puxou meu cartão. Eu tentei dizer que isso só faria tudo demorar ainda mais, mas já era tarde. Ele já estava começando a toda a operação novamente.

– Ébi? Édi?

– Ébi. Eu acho.

Fez tudo isso e me entregou a maquininha. Olhei para os lados pensando que meus vizinhos deviam estar assistindo ao Jornal da Globo, enquanto eu ainda estava no horário do Jornal Nacional.


REGISTRANDO


– Sanha?

– Ainda está registrando.

– Sanha.

– Não. Ela precisa pedir a senha para eu colocar a senha. Todas as civilizações que usam o débito automático funcionam sob essa lei.

– Sassanha saissa.

– Como?

– Sassanha saissa.

– Sem senha?

– Sassanha saissa.

– Sem senha, sem pizza?

– Saissa.

– Olhe, eu não quero roubar sua pizza. Mas eu preciso esperar a máquina pedir a senha. E ela ainda não está pedindo, está vendo?


TENTANDO CONEXÃO


– Sassanha.

– Isso. Sem pedido de senha, sassanha. Quer dizer, sem senha. Entendeu?

– Bema tema.

– Como é que é?

– Tema.

– Não, você disse algo antes do tema. Pareciam duas palavras.

– Bema.

– Vem cá, você realmente não quer tirar esse capacete?

– Bema. Tema.

– Hum... Darmok e Jalad... Em Tanagra? (Star Trek: A Nova Geração mode: on)

– BEMA! TEMA!

– Eu não faço ideia do que você quer! A máquina ainda está tentando fazer algo! Olhe aqui!


REGISTRANDO


A paciência do capacetiano estava perto do fim. Ele gritou algumas palavras incompreensíveis e tentou puxar a máquina da minha mão. Mas desta vez eu resisti e não entreguei o aparelho.

– Não! Você não vai tirar meu cartão daqui!

– BEMA! TEMA!

– Não me importa! Se você tirar seu cartão daqui, a gente vai começar tudo de novo! E eu tenho planos de comer minha pizza e envelhecer como as outras pessoas da minha espécie! Eu não vou ficar preso aqui nesse limbo!

– BEMA!

– Não! Sinta-se livre para voltar para seu povo com a sua pizza, se você quiser! Mas você não vai tirar meu cartão dessa máquina.

– BEMA! TEMA!

Ele disse isso e desistiu de puxar a máquina, fazendo um gesto que poderia ser interpretado em qualquer lugar da galáxia como “você que se foda” (ou talvez ele estivesse sugerindo onde eu poderia enfiar a máquina, com cartão e tudo). Mas eu resisti e voltei a usar a diplomacia.

– Olhe, eu não sei como você fazem em Capacete Prime ou qualquer que seja o nome do planeta que você veio, mas nós precisamos trabalhar juntos para resolver esse problema.

– BEMA! TEMA!

– MAS EU PRECISO QUE VOCÊ TIRE ESSE CAPACETE E FALE COMO UMA PESSOA NORMAL!

– Tema.


HAHAHAHAHAHAHA


– Espere! Você viu isso?

– Vique?

– Sua máquina! Sua máquina está rindo de mim! Olhe aqui!

– Bema.

– Ela já tinha feito isso com outra pessoa?

– Bema. Tema.

– Isso é importante para você, certo? O lance do bema e tema?

– Bema.

– O que é bema? Por favor, me dá algo para eu poder trabalhar aqui? Uma imagem, um desenho, qualquer coisa.

Ele apontou para a máquina.

– Bema.

– Bema... Bema... Problema? É isso? Problema?

– Bema!

– Problema tema... No Sistema! Problema no sistema!

– Bema! Bema tema!


HAHAHAHAHAHAHA

VOCÊ É BABACA DEMAIS!



– Bom, sua máquina acabou de me chamar de babaca. Mas acho melhor eu confiar na sua palavra. Deve ser bema tema. Espero que seja.

– Bema tema.

Olhei para o lado e vi uma senhora de idade saindo da casa ao lado e me deu boa noite. Não tive certeza, mas ela se parecia bastante com a minha vizinha que, até aquela tarde, devia ter a mesma idade que eu. Talvez um pouco mais nova.

Quanto tempo já havia se passado?

– SANHA!

O capacetiano estava dando pulos e apontando para a máquina. Olhei para a pequena tela.


OLHA, VOU SER GENEROSA
E DEIXAR VOCÊ COMER.

SENHA:



Eu ignorei a primeira frase e apenas digitei minha senha. Poucos segundos depois, ela cuspiu o papel comprovando a transação.

– Cepéf?

– Oi?

– Cepéf?

– Se eu quero CPF na nota?

– Cepéf.

– Não. Nem fudendo. Me dá só dá a pizza.

– Issa. Ba-mné.

Finalmente entendi que o ba-mné devia ser boa noite. Mas apenas apanhei a pizza e me despedi rapidamente, voltando para dentro de casa.

E eu estava sozinho. Não havia mais ninguém em casa. Minha sala parecia ser como eu me lembrava, mas completamente deserta. Provavelmente, todas as pessoas que eu conheci estavam mortas há décadas.

Eu havia me tornado uma criatura deslocada no tempo. Em breve, eu seria detectado por cientistas que encontrariam em mim um objeto arqueológico inestimável. Passaria o resto da vida carregando minha caixa de pizza e sendo exibido em museus e exposições. Ficaria ali, parado, ouvindo as pessoas comentando coisas como “todo mundo era pequeno assim por volta do século 21?”, “como eles eram atrasados, eles ainda não sabiam lidar com a calvície naquela época!” e “papai, posso tirar um holograma ao lado do homem do passado?”.

– Você demorou!

Era minha Esposa! Ela estava na cozinha! E ela... Bem, ela parecia ser ela mesma!

– Quanto tempo eu fiquei fora?

– Bastante! Eu estava quase saindo para ver se tinha acontecido alguma coisa.

– Que dia é hoje?

– Como assim? É sexta-feira.

– Não! O ano! Que ano estamos?

– Você enlouqueceu?

– QUE ANO ESTAMOS?

– 2016. Mas porque você demorou tanto?

– Nada. Não quero falar sobre isso. As Olimpíadas já acabaram?

– Claro que não.

– Certo. Vamos comer a pizza e ver um pouco das Olimpíadas. Só isso.

– Não quer ver alguma série de ficção científica?

– De jeito nenhum. Eu vou pegar a Coca.

No dia seguinte, coloquei um aviso ao lado da campainha dizendo que pessoas com capacete são proibidas de tocar a campainha de casa.

Quando me perguntam por que fiz isso, digo que é porque tenho medo de assalto.

7 de agosto de 2016

Desodorante Gourmet para Axilas Refinadas

Dia desses fomos até a farmácia, porque precisávamos comprar várias coisas. Pedimos os remédios que precisávamos no balcão e depois saímos pelos corredores pegando os outros produtos.

Prometia ser uma visita normal à farmácia. E tudo estava acontecendo como planejado até a hora que paramos em frente à prateleira de desodorantes.

Se você fizer uma lista das cinco atividades mais difíceis do mundo moderno, “comprar desodorante masculino” teria lugar cativo na lista. Pelo menos, no meu mundo moderno. E eu vou explicar aqui como surgiu o meu drama.

Eu sempre gostei daqueles desodorantes à moda antiga, que espirram um jato composto de 99% de álcool e 1% de qualquer aroma artificial. E sim, isso por causa do álcool – desde a adolescência, um dos meus maiores prazeres era espirrar desodorante no peito e me sentar na frente do ventilador.

Mas, de uns anos para cá, os desodorantes desse tipo iniciaram um tipo de competição, onde cada marca disputa para ver qual apresenta o produto mais vagabundo. Se a embalagem é boa, o perfume é vagabundo. Se o perfume é gostoso, a embalagem é vagabunda. Se o perfume e a embalagem são bons, o desodorante é três vezes menor que os outros e custa cinco vezes mais. Se o perfume é gostoso, a embalagem é boa e o preço é justo, os efeitos do desodorante duram entre oito e onze minutos.

Então, de um tempo para cá, eu tenho experimentado novos tipos de desodorante. Isso não quer dizer que estou usando desodorante artesanal, e por dois motivos. Primeiro, até onde eu sei isso ainda não existe; segundo, o dia que inventarem isso quem vai usar serão aquelas pessoas com coque no cabelo que enchem o celular de músicas alternativas insossas que “cara, essa música toca muito no meio do coração”.

Não, nada disso. Prefiro que meu desodorante tenha um código de barras na embalagem mesmo. Só que, como eu disse, estou experimentando novos tipos de desodorante. O primeiro que experimentei foi um que era um spray, mas o nome tinha a palavra seco. Não lembro ao certo, era Alguma-Coisa-Seco.

Quando eu comprei, achei que aquilo era um erro de conceito. Como um spray que espirra algo líquido pode ser seco? Mas, comprei e experimentei.

E me arrependi na primeira aplicação. Porque ele não espirra um líquido, mas sim uma espécie de... Não sei, não é um pó. É como se fosse um novo estado da matéria, que não é líquido nem sólido nem gasoso e que deixa a pele com uma mancha completamente branca.

Não é exagero. Na primeira vez que usei, levantei o braço e me senti como se estivesse virando os farelos do saco de biscoito de polvilho em cima de mim. O cheiro? Acho que não era ruim, mas não tenho certeza, porque a cada vez que eu passava o desodorante o pó-que-não-é-pó-mas-também-não-é-líquido-e-não-chega-a-ser-gás se espalhava pelo banheiro e grudava na minha garganta, e eu tinha que sair correndo dali.

E não, o problema não era comigo, porque bastava eu colocar as mãos no desodorante e todos os gatos da casa desapareciam.

(Acabou de me ocorrer aqui que talvez o nome do desodorante seja Bomba de Efeito Moral – Seco, mas não tenho certeza).

Desisti disso e experimentei um desodorante roll on, que usa o mesmo princípio de todos os filmes pornográficos dos anos 80. Isso porque ao invés de espirrar o desodorante, você agarra o tubo com força e desliza com sua ponta arredondada e gosmenta suavemente pelo corpo – morder os lábios, virar os olhinhos e deixar um solo de guitarra tocando de fundo é opcional, mas pode enriquecer ainda mais a cena (mas deslizar a coisa pelo rosto deve ser apenas para os mais corajosos).

Na minha casa, essa transformação em Cicciolina funcionou nos primeiros dias, até o gato derrubar o maldito desodorante e quebrar a embalagem. Então, meu desodorante não ficava mais gosmento, mas encharcado e cada vez que eu saía do banho e passava o negócio, tinha a sensação de que havia caído em uma piscina de ectoplasma, e praticamente tinha que tomar outro banho.

Mas vamos voltar à farmácia. Olhando os desodorantes na prateleira, eu estava completamente decidido a resolver esse problema de uma vez por todas. Então comecei a olhar as embalagens spray procurando por alguma que parecesse funcionar direito e que tivesse um perfume aceitável.

Bem, todas pareciam funcionar direito. Quanto ao perfume... Acho que um dos maiores mistérios hoje é descobrir o odor de cada desodorante. Porque eles ficam lacrados, então você não pode abrir e espirrar na mão para experimentar. Assim, tudo o que você tem é o nome.

E o nome nunca é o perfume. Vamos pegar, por exemplo, um desodorante com perfume de menta (sim, eu sei que provavelmente isso não existe, mas vamos de menta mesmo, apenas como exemplo). Ele não vai se chamar Marca X – Menta, e sim Marca X – Correndo pelos Alpes no Sábado de Manhã.

Esses são os nomes dos desodorantes hoje. Momentos Inesquecíveis ao Lado dos Amigos. Passeio Romântico pelos Bairros Históricos. Dia a Dia Repleto de Conquistas e Vitórias. Exposição de Arte Seguida por um Capuccino com Pouco Açúcar. Regata no Mediterrâneo – Versão Competitiva.

Assim, eu fiquei olhando para os desodorantes como um tupi-guarani observando as primeiras caravelas portuguesas aparecerem no horizonte, com aquela sensação de que “eu não entendo o que é isso” mesclada com “isso marca o início do fim do meu tempo nessa Terra”, sem saber o que fazer. Até que vi as latas da Old Spice – que são muito mais bonitas que as outras.

A Esposa, ao meu lado, achou essas latas ao mesmo tempo e começou a olhar. Os nomes eram mais simples, mas também não queriam dizer muita coisa. Pegador. Matador. Zagueiro. Articulador. Guitarrista. Uma delas estava em destaque e a Esposa pegou.

– Olhe esse. Lenha.

– Oi?

– É o nome do desodorante. Lenha.

– Como assim, lenha?

– Provavelmente você vai ficar com cheiro de lenhador.

– Em primeiro lugar, lenhadores não existem a não ser nos jogos de estratégia. Se eu fosse um bonequinho de Age of Empires, eu usaria um desodorante chamado lenha. Aliás, eu não usaria, porque aí eu seria um lenhador e já teria cheiro de lenha.

– Ele é mais caro que os outros.

– Agora, se eu fosse outra coisa dentro do Age of Empires, um caçador ou fazendeiros, talvez eu usasse o Lenha para as pessoas acharem que eu sou lenhador. Porque se eu fosse um fazendeiro, jamais usaria o Desodorante Hortaliças. Usaria o Lenha.

– Será que ele é melhor que os outros?

– Isso, claro se eu não fosse o pescador. Se eu fosse o pescador, usaria qualquer um. Porque imagine aquela vila de Age of Empires. Ela já não é grande, todo mundo deve se conhecer ali. Então você ficar com cheiro de peixe todo dia... Todo mundo deve ficar comentando. Até os soldados.

– Do que você está falando?

– Nada. Estava apenas pensando alto. Talvez eu escreva uma crônica sobre Age of Empires. Por que você está com esse desodorante Lenha na mão?

– Por que você não leva esse?

– Você enlouqueceu?

– Ele parece bom.

– Mas ele tem cheiro de lenha! Olhe para mim!

– E daí?

– Você consegue me imaginar com cheiro de lenha? As pessoas vão achar que eu sou um pizzaiolo!

– Mas esse aqui...

– Não. Vamos pegar outro.

Comecei a olhar outra marca. Os desodorantes dessa tinham nomes mais simples, e não demorou muito até eu perceber que cada tipo significava o que a pessoa queria ser. Executivo. Atleta. Empreendedor. Publicitário. Engenheiro Químico. De repente, eu não estava mais comprando desodorantes e sim escolhendo minha profissão no Jogo da Vida. Mas eu não queria ser nada ali. Procurei coisas como Capitão de Nave Estelar, Atacante do Brasil da Copa de 70 ou General Aliado na II Guerra Mundial. Nada. Nenhum deles me interessava, até que...

– Achei!

– Você não vai levar esse!

– Claro que vou! Olha essa embalagem! O perfume deve ser demais.

– Esse é do Batman!

– E daí? Todo mundo quer ser o Batman!

– Quantos anos você tem mesmo?

Tentei fazer quarenta com os dedinhos, mas me atrapalhei e respondi.

– Tenho quarenta. Exatamente dois anos a mais que eu tinha no dia que comprei uma saboneteira do Homem-Aranha.

– Então, mas esse é do Batman é mais caro.

– É mesm... Não! Espere! Ele é mais barato! Porque é um kit! Você compra e ganha esse do Super-Homem junto!

– Certo.

– Vamos levar o kit! Vou colocar os dois em cima da pia e batizá-los de Kit de Higiene Pessoal Martha!

– Certo.

Assim, voltei para casa feliz da vida com meus novos desodorantes. Sim, o do Batman é daqueles que deixa os farelos de polvilho no corpo, mas não tem problema. Afinal, ele chama “Batman”, e não “Lenhador Com Aparência Bruta mas que na Verdade é Sensível e Sonha em se Apaixonar e Constituir Família”.


Aliás, estou pensando aqui em comprar mais uns dez kits, porque nada no mundo é fácil. Nem comprar desodorante.